O Brincar/A Criação Cultural/ Poderemos ainda Caçar Crepúsculos?

4 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Fatos feitos em nossas Solidões de Infância

Ilustração, composição musical de Erik Fernandes.

Conto Xin e Pan escrito por Yara Moema

A atividade mental (s) que comparece no Brincar, enquanto criação de realidades novas, de investigação imaginativa, acontece dentro de toda a complexidade da inteligência, faz parete da elaboração mental e cognitiva tanto dos feitos de arte quanto das descobertas científicas. É ação da inteligência inteira, é integração mental.

Para nós, poetas, entretanto, que experimentamos esse estado de ser, de produzir criativamente, talvez nos bastem as experiência com os objetos inúteis, aqueles  neglicenciados pelo nosso cotidiano, como as palavras asfaltadas dos folhetos de lojas… qualquer dessa matéria que sobra do uso chamado útil, e que está ali, numa esquina à espera de nossa aproximação. Regenerá-la em mundos de linguagem.

Um dos pensadores do Brincar, e creio que o mais dedicado a essa concepção de transicionalidade, de trânsitos criativos entre o nosso mundo interno e o que nos é dado pela cultura, é W. Winnicot:

Ser e Fazer

por André Green, em Donald W. Winnicott, editorial Trieb, Buenos Aires, 1978

“A criatividade é um traço fundamental. Compreendamos que, antes de sero dom de alguns, a criatividade é um fato sem o qual não há vida psíquica, senão tão sá uma sobrevivência; não uma existência, senão um hábito que se mantém com seus autometismos, indiferente tanto à vida como à morte. Frequentemente essa criatividade é sufocada pela dissociação.”

Aqui, certamente André Green se refere à dissociação mencionada por Winnicott, do que ele conceitua como o verdadeiro self e de o falso self. Ou, também,  entre a regressão a estados da infância e a rigidez da ” maturidade “.

” … A regressão é pensada tradicionalmente em termos de busca de satisfações mais ou menos antigas. Winnicott a considera como modalidade de regresso a uma situação de carência, que desembocou na criação do falso self. Daí o sentimento que domina a pessoa é de futilidade, como se toda a experiência estivesse fortemente gravada pela vivência de inconsistência, de não compromisso, de exterioridade estranha.

“A noção de falso self se presta a equívocos se não se tem em conta a significação precisa que lhe dá Winnicott. Em todos existe um falso self: o que a educação nos obriga a adquirir para manter com nossos semelhantes relações civilizadas. “Nos casos favoráveis, o falso self determina uma atitude maternal imutável para com o verdadeiro self e o mantém permanentemente como uma mãe que carrega seu bebê… Então se compreende que o falso self tenha em tais casos, preponderantemente, essa função de proteção, para permitir ao verdadeiro self manifestar-see livre em certas circunstâncias. Ao contrãrio, a organização patológica do falso self é aquela em que um processo de cisão, de clivagem  (splitting) dissocia, distancia demais o falso self do verdadeiro e já não dá acesso a esse último, que termina privado de meios de expressão e satisfação pela comunicação..

” A comunicação
O que ocorre com o verdadeiro self? Em uma primeira  apreensão, pode-se dizer que o verdadeiro self ampara o que está vivo no sujeito, seu potencial de vida psíquica criativa, aquilo pelo que ele existe (que o faz não se contentar com apenas sobreviver), isso que está na fonte do que chamamos espontaneidade, o que nos dá o sentimento de autenticidade também do outro e que se vincula ao mais subjetivo que há nele.
… Ocultar-se é um prazer, porém não ser encontrado, pode ser uma catástrofe.

segue o início do Cap III do livro A Poética do Devaneio,

de Gaston Bachelard,

ed. Martins Fontes, 1996, pg93

Devaneios voltados para a Infânc
ia

Solidão, minha mãe,

reconta a minha vida.

O. V. de Milosz, Symphonie de septembre

Trago-te uma água perdida

em tua memória – segue-me

até a fonte e encontre seu segredo.

Patrice de La Tour Du Pin, Le second jeu, Gallimard, pg 106

…………..……….

Quando, na solidão, sonhando mais longamente, vamos para longe do presente

reviver os tempos da primeira vida, vários rostos de criança vêm a nosso encontro.

Fomos muitos na vida ensaiada, na nossa vida primitiva. Somente pela narração dos

outros é que conhecemos nossa unidade. No fio da nossa história contada pelos outros,

acabamos, ano após ano, por parecer-nos com nós mesmos. Reunimos todos os

nossos seres em torno da unidade do nosso nome.

Mas o devaneio não conta histórias. Ou, pelo menos, há devaneios tão profundos,

devaneios que nos ajudam a descer tão profundamente em nós mesmos que nos

desembaraçam da nossa história. Libertam-se do nosso nome. Devolvem-nos, essas

solidões de hoje, às solidões primeiras. Essas solidões primeiras, essas solidões de

crianca, deixam em certas almas marcas indeléveis. Toda a vida é sensibilizada

para o devaneio poético, para um devaneio que sabe o preço da solidão. … Na solidão… ali,

ela (a criança) se sente filha do cosmos, quando o mundo humano lhe deixa a paz.

E é assim que nas suas solidões, desde que se torna dona de seus devaneios, a crianca

conhece a ventura do sonhar, que será mais tarde a ventura dos poetas.

Como não sentir que há comunicação entre a nossa solidão de sonhador e as solidões da infância?

E não é à toa que, num devaneio tranquilo, seguimos muitas vezes a inclinação que nos

restitui as nossas  solidões de infância.

Gaston Bachelard

 

http://aeilij-parana.blogspot.com

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