Regina Gulla

31 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

regina gulla, aquarela em papel seda

 

Poemas diurnos

Regina Gulla

Aconteceu uma coisa, eu nao sei bem
Um ruflar de asas, um sopro na cinza do cigarro
O pneu do carro está mais baixo?
Ou foi o varal que desprendeu
As roupas no chão são tão longe
Das minhas mãos
É como se eu tivesse estado em vários
Universos
Assim, parecidos, entre
tanto paralelos
Cada um de um jeito
E meu peito aceso
Unindo todos
Como o núcleo da célula
Eu, gema e clara o mesmo ovo
Mas daí aconteceu uma coisa
One thing, one
Le petit chose, quelle, je ne c’est qui ça
Nos imponderáveis espaços
Esses quartos da minha carne, meus terraços
Garoa e sol, tudo misturado
Trapos de seda e veludo esmeralda…
A rede se esgarça, é um susto
Um dos quarto se apaga
E eu não tenho mesmo
Idéia, que é isso?
Carrego meu corpo como um pássaro

suas asas.

…………..

Portas para o nevoeiro:

Folheio a porta da entrada

mal me quer bem me quer

cada nervura um sopro

cada ranger um capítulo

O sofá?

É amarelo meu colo de Van Gogh

minhas penas

e o nanquim é daqui mesmo

na China tem chinês por acaso?

Como fechar um livro e seus batentes

feitos de minha melhor peroba

forçar agora a chave, pra quê?

Só pra dar uma volta do tempo?

Vá lá, tempo

Tenho duas pupilas no jardim

Castanha, a menina,

azul cobalto a mãe

desbastam o mato

À beira do riodas minhas veias

Plantam couve, salsinha

manjericão querem-me jorrando

fonte o coração

Quando vejo o que elas fazem

ai, o perfume de suas aragens

seus braços fortes plumagens

chego a ter certa vergonha de partir nessa jangada

com ventos a 35km h

para entender onde começam os nevoeiros
Regina Gulla, 03/9/2010, 21:37

Lusco-Fusco

Eu cavouco as cinzas
Nem sinal
das vivas brasas
Tento
meu líquido sopro
são lágrimas
e a fogueira mais se apaga
_Todos se vão?
Mas o jantar será servido
diz meu timbre rouco
ao silêncio calcinado
Datas
Não é festa / São João
foi-se
pela floresta
das macieiras jovens árvores aprumadas
É segunda-feira
e quem sabe meu amigo
volta
dia desses
com uma centelha
brilhando no meio do poema?

……………

Acaso ).(Ei, quem foi que deixou
hein, sobre a escrivaninha de seda
esse beijo de papel dobrado
Olha aqui o beijo inventado
ninguém ‘stá vendo, vindo
em pouso sereno sobre o talher
oxidado das minhas histórias
horas mal acabadas em arremate
com sinhaninha estampa pied-de-poule
em cor pastel e ferrugem
Cílios de pano, pestanas em plumagem
de um pássaro africano
tipo ave do paraiso, eu
tipo isso, essa minha mãe menina
Ela tipo palco de um cuore trágico
onde Ziembinski tropeça em seu russo
tapete alado com Cacilda Beker
na espera de mais um Godot
bordado a Becket e talco Johnson’s
Essa, eu? veja, rsrs
quantos ares faz essa menina
mareada de sorvete com naftalina
jornal de domingo na estante essa
Alice, cal e azeviche no café
da manhã onde o sol nasce na caneca
essa menina louça noiva de uma gota
de nanquim , hahaha, ali, olha, agora, olha
E não é que resta a pena
seca da caneta sobre a seda negra?
olha só esse eh, esse
último gesto de um espantalho de cal
esse sobre um dourado ocaso qualquer
Olha só!
E dizem que essa menina um dia foi mãe!,

rs.RG 28/09/2010
…………………………………………

não quero mais

Não pense que toda essa
briga entre ondas e rochas de tabaco
acaba agora nesse embalo de salada de frutas
regada a guaraná diet
quer pacificar os ponteiros do relógio
regar de torneira as minhas bentas
águas
só para disfarçar aí no papel
almaço a sua caligrafia malva
essas pautas de alvas semínimas
cândidas claves
–Um enfado, quer saber?
Eu não guardo mais o condão
de gelo nem a filigrana de tédio
que você me deu no Natal
E chega de passear na sala
encerada das minhas manhãs, –Stop!
Não tá vendo a placa?
Você só serve para anteontem, sabia?

RG 28/09/2010
………………………………………..

Palm bomb

Papel crepon deixa marcas
e a gente sabe e vai e pega
mergulha ele na água
e brinca de festa na floresta
margaridas bemquerendo uma
a uma as minhas pétalas
Quer es? Não quer es?
Ssss se cuida menina boba olha
galo na testa é feito con densação de urânio
isso não é palmito não
Bala de coco? hahaha
só você só
eu mesma pra inventar um céu
de papel mata-borrão
A casinha da madrasta continua te esperando
Vai acreditar que desta vez
Papai se casou direito?

Rg 28/09/2010
Esse pai , rs


On 28/08/10 01:06, “Regina Gulla” <gato-de-mascara@uol.com.br> wrote:

 

paisagem diurna, aquarela de Regina Gulla
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