Poção de Imagem

21 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

Os Abismos de Horácio Costa

Abismo

ABISMOS

 

Não me obriguem a chegar mais perto dos abismos:
Ícaro despenhou-se;
Ariadne foi abandonada em Naxos
e cantou sua desdita a um abismo;
Tristão e a pobre Isolda desceram a falésia
rumo ao barco que os levaria direto às
ondas. Os abismos
constroem destinos cruéis que atravessam séculos.
Nada cruel é o meu e que acabará comigo.
Desconheço o abismo da paternidade,
Recusei o da troca da nacionalidade,
O abismo do amor-louco esquivei.
Algum dia quiseram-me vestir de branco:
Rasguei as vestes em presença dos bem-intencionados:
Não quis ser herói de alguém
para não tornar-me abismo de muitos.
Preferi a condição pedestre, acompanhar com o olhar
A zebra que singra o asfalto antes de atravessar a rua
Ao bordereau da vida.
Ainda assim, ocorrem-me abismos
E não apenas quando sustenta alto uma nota um soprano
Ou quando arrebenta como um colar de ondas estrepitantes
O choro de um bêbê.
Falo dos abismos dos sonhos que seduzem a quem os sonha,
A esse em que abandona a alucinação que construiu ao redor
Da sua idéia de si o eu empaliçado,
E àquele que, na travessia do sonhar,
Abandono-me a quem em mim sonha persistente
E abismos sonha.
Falo das arquiteturas que não quero subir
E são-me pelos sonhos impostas,
Barcos nos quais me encontro cruzando mares ignotos
Rumo à concreção de destinos que não posso recusar
E aos quais sirvo,
De falésias que esperam não o meu olhar
Mas o meu salto:
Falo da sereia mortal que me seduz todas as noites
Enquanto durmo e a mim com o seu canto nina
E marca os minutos com um observante adejar
De sua oleosa e rebrilhante cauda,
Na espera do assalto final.

 

La Jolla, Califórnia, 19 II 04 (escrito no meio da noite)

 

Dá para perceber aqui, que o EU LÍRICO, este que se fala (podemos dizer que narra?), no poema, não tem nada de sublime, necessariamente. Essa confusão, do termo lírico com sublimidade, aquela das musas do Monte Parnaso, etc,  é frequente, e muitas vezes atrapalha o trabalho e mesmo a compreensão do eu poético, do eu lírico, e faz muita gente evitar escrever poema.
Ele é o o quê, o eu poético? Ser ficcional (que não se confunde com a biografia do autor ainda que ele mesmo o deseje); cuja qualidade de experiência é subjetiva. Essa subjetividade tem uma gama imensa de características; e, desde o século passado, então, imagine se ela se prende a uma condicão existencial assim ou assada, sublime, maldita, etc. O eu poético é o ser do poema, é uma entidade literária, um ser de linguagem, portanto livre de qualquer pré concepção. Este, do Horácio, é um exemplo disso.
Quem orienta o eu poético, é a linguagem que o autor adota para esse “narrador ” , linguagem essa ditada por uma visão subjetiva (nada genérica, particularíssima portanto) do fenômeno (interno ou externo ao ser) e o percurso desse olhar, dessa experiência que justamente esse EU faz, verso a verso.
Está bem assim?
Gente, isso aqui não é escola, lê quem quer, ok? mas dá para arriscar responder, conversar, por favor, quem tiver o que dizer, ao grupo, a mim? Isso é matéria de se ir conhecendo junto, não é mesmo? Então nada de melindres.
Já que não gosto de lhes omitir conhecimento, já que lhes ofereço as associações que vou fazendo durante a semana, então que aproveitemos para conversar, que tal? Comentários, respostas, …..
Esse envio constante pode ficar excessivo para alguns, mas há sempre alguém que recebe bem.
Para uma professora de poesia, isso é tudo de bom. E o que é uma professora de poesia senão aquela que professa linguagem poética, e, vez em quando, pode ser ouvida por alguém a quem consegue chegar?

Bjbj

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