Poção dos cantinhos perdidos

17 de setembro de 2010 § 1 comentário

Nesta SALA DE AULA DE IMAGEM, todo dia é publicada uma poção mágica feita com o texto de um autor de filosofia da imagem poética, seja Octavio Paz, Gaston Bachelard, André Breton, outros mais. A leitura de um texto de tal índole costuma provocar uma reação mágica no leitor, a ponto dele iniciar imediatamente sua escrita imaginativa do dia, esteja ele em sua escrivaninha,  fazendo uma operação de amígdalas, ou morrendo de dor na cadeira do dentista.

Cadastro dos espaços perdidos

” Toda pessoa deveria então falar de suas estradas, de suas encruzilhadas, de seus bancos. Toda pessoa deveria fazer o cadastro de seus campos perdidos. Thoreau afirmava ter o mapa dos campos incrito em sua alma. E Jean Wal escreveu:

O ondulado das sebes,

É em mim que o tenho. Poèmes, pg 46

Vamos entregar-nos, pois, ao poder de atração de todas as regiões de intimidade. Não há intimidade verdadeira que repila. Todos os espaços de intimidade designam-se por uma atração…. é bem estar… os abrigos e os aposentos.

As verdadeiras casas da lembrança, as casas onde nossos sonhos nos conduzem, rejeitam qualquer descrição fiel… A casa primordial e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. … me situar no limiar de um devaneio em que vou repousar no meu passado. … no limite da memória, além talvez da memória, no campo imemorial.

De que serviria, por exemplo, dar a planta do aposento que foi realmente o meu quarto, descrever o quartinho no fundo de um sótão, dizer que da janela, através de um vão do teto, se via a colina? Só eu, … posso abrir o armário profundo que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam na grade. O cheiro da uva! Cheiro limite, que é preciso muita imaginação para sentí-lo.

Portanto, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, há um sentido em dizer que  “escrevemos um quarto”, que “lemos um quarto”, que  “lemos uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, na primeira abertura poética, o leitor que “lê um quarto”, interrompe sua leitura e começa a pensar em algum aposento antigo. … Os valores da intimidade são tão absorventes que o leitor não  lê o seu quarto: revê o dele. Foi já escutar a lembrança de um pai, de uma avó, de uma mãe, de uma criada, da “criada de grande coração” , em suma, do ser que domina o recanto das suas lembranças mais valorizadas.

… a casa natal está fisicamente em nós. O menor dos trincos ficou em nossas mãos..

…nosso corpo que não esquece e a casa inolvidável. … Mais que um centro de moradia, a casa natal é um centro de sonhos.

Cada um de seus redutos foi um abrigo de devaneio. .

A casa, o quarto, o sótão onde ficamos sozinhos Dão os quadros de um devaneio interminável, de um devaneio que só a poesia, em uma obra, poderia concluir, realizar. …a casa da lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro.

A infância é, certamente, maior que a realidade.

É no plano do devaneio, e não no plano dos fatos, que a infância permanece em nós viva e poeticamente útil.

Poema, ou Cena, do dia: Meu primeiro quarto

Sonho com uma morada, casa baixa de janelas

Altas, três degraus gastos, rasos e esverdeados.

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Morada pobre e secreta com ar de gravura antiga

Que só vive em mim e onde eu entro às vezes,

Sentando-me para esquecer o dia cinzento e a chuva


André Lafon, Poèsies. La rêve d’un logis.

…Tudo respira de novo

A toalha é branca.

René Cazelles, De terre et d’envolée

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