Linguagem e erotismo na poesia/aula 2/Gepeto

16 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

Linguagem e erotismo na Poesia

5 05UTC setembro 05UTC 2010 por CiberBosqueEditar

Só para prosseguir na experiência da nossa conversa
sobre erotismo,
tentem guardar entre parênteses a introdução do
Livro da Oficina, aqui abaixo, que ainda está no
prelo,ed DCL, para ligarmos, mais além, com as
questões do erotismo na poesia, na linguagem poética,
que estamos tratando:

Oficina de Criação Literária

para o Aprendiz de Escritor

introdução


Foi numa pequena aldeia da Itália que, certa vez, um marceneiro chamado Gepeto, depois de entregar as encomendas aos seus fregueses, voltou para casa, tomou um pedaço de madeira nas mãos, na esperança de se distrair um pouco, e começou a dar alguma forma àquele material a que estava tão acostumado. Depois de algumas horas, tira lasca daqui, grava com o cinzel dali, o carpinteiro vai descobrindo: isto é um nariz? Então, aqui faço uma boca; aqui, dois olhinhos bem espertos… Ah! Logo reconhece, com os olhos admirados, o que acabara de esculpir: um boneco. Cambaleante de sono, boneco no colo, Gepeto caminhou pela sua oficina, em direção à janela, para fechá-la e poder, enfim, dormir. Olhou para a imensidão do céu, desejou: “Estrela de alva luz, faça com que esse meu boneco de pau possa, um dia, transformar-se em um menino de verdade”.


Carpinteiro: esse era o ofício de Gepeto; a madeira, sua matéria.

E uma oficina de escrita… Do que se trata?))))))))

Bom, vamos lá.
Tereza , Uxa e Paulo acompanharam brilhantemente a aula de erotismo online, precisamos que Paulo e Tereza enviem os textos a todos, desta lista, o texto de um, esclarece e fortalece o do outro.
Vejam b.
Vocês procuraram esta oficina de criação literária para escrever solto, perder inibição, escrever melhor, digamos assim, não?
Pois bem. As bases da oficina, o primeiro módulo, de 5 meses , trata de criatividade, desbloqueio, sim,  cuida de deixar o seu estilo nascer a ponto de ser ao menos reconhecido (fazer a certidãp de nascimento). Este é o Real. O nosso Real da Oficina: recursos técnicos suficientes para que repitam depois , sempre, para se aproximarem do papel, para criarem um texto onde nada existe, ok?

Estando essa experiência de produção criativa e poética estabelecida em vossos corações, canetas e textos surpreendentes, acaba o semestre.
Então o que acontece?
Por que alguns, a maioria , permenece?

Por duas razões principais:
*a primeira, por que a experiência de escrita-leirura-reescritaem grupo leva a escrever mais. E sabem por que? Por seu caráter de ligação, de colaboração, de aliança, reunião.
Isso lembra o quê?
O quê?
Sim, lembra a qualidade erótica de uma experiência, óbvio.
Então,
*a segunda razão, é, evidentemente, a experiência erótica ali, no convívio, com os outros, as palavras fazendo o serviço de reconciliação dos seres com seus desejos, alguns compartilhados, expressos  em seus texto. Não sua vida íntima, não. Sua vida desejante, aquela mal conhecida, somente conhecida pelo signo, nunca por você mesmo.
Somos linguagem.
Por isso na oficina não escrevemos verdades. A verdade é coisa do Real. É a tempestade à tarde na cidade, é o susto com o ladrão, o óbito do pai do Ariano, é a coisa experimentada. Nós? Poetas? Ecritores de literatura, seja prosa, seja poesia?  Experimentamos a coisa palavreada. Daí, é IMAGEM. É a palavra reencarnada do desejo. Não o corpo do amnte em si mesmo. Sinto muito decepcioná-los, rsrsrs.
Estamos entendidos?
Nos grupos da oficina ninguém nem se toca (ainda mais agora, por MSN!), mas é experiência erótica, pois eu os levei a isso, proporcionei sim, deliberadamente, a ligação única, que não se tem em outro lugar que não o da arte, a atmosfera dada pelo  desejo se estar junto, com a matéria palavra, entre os corpos amigos. toda semana. No que pode dar isso? Redação? Never. Dá em experiência poética, ainda que se escrevam crônicas. Palavras. Ponto final.
Claro que o que houve de espontâneo (amizades, namoros, até, intimidades),  entre todos nas reuniões de grupo da ofi foi determinante nos encontros. Mas não durou nada, o namorico daqui, a paquera dali. Saporquê? Por que esgota. Palavra Não. É inesgotável a linguagem tanto quanto o desejo o é, não realizável, não atuado no tal Real.
Difícil copreender? Não é não.
Vide a experiência. Tá ai, em cada um a seu modo. Indelevelmente feita.
Porém devem ter se dado conta que a minha especialidade não é propriamente redação, e que nossos assuntos mais eram e são de ocorrências VIVAS do texto do que a estática das regras de escrever.
Fugi da demanda inicial de cada un? Escrever bem? Não. Não fugi não. Porque ou você trata de escrever no campo erótico, ou por mais que treine, vai escrever com melhor estilo (e isso também pode ser suficiente, uai).
O erótico na técnica (hoje eu estou demais, hein? rs)
Vocês sabem melhor que eu, escuta:
Quando o poema cicia, qundo o poema percute, sussurra, ondeia (ex A Onda do Manoel Bandeira), quando o poema semeia (semen), geme, canta, toma banho, explode, se iluminalagarteia (lembrando a Emília do M. Lobato. A Emília é altamente erótica, ainda vamos falar sobre isso: a palavra dela É, não quer dizer. É. O verbo  preferido da Emília,malandrear, é erótico. A palavra Age. Isso é só o começo. Depois eu conto mais da Emília.)

Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.
Monteiro Lobato e o Direito de Sonhar, posfácio de Francisco de Assis Barbosa, em A  Menina do Nariz Arrebitado, de Monteiro Lobato. Edição fac-similar feira pela Metal Leve, sobre a ed. de 1920, Ed. Revista do Brasil _ Monteiro Lobato & Comp..

O que estou chamando de erótico na técnica, então? Fazer textos em que o leitor possa MORAR
Tudo que vemos no semestre inicial, só que superdisfarçado por mim, para a mãe, a namorada de vocês não tirar vocês do curso, só isso).
Quando reivindicamos para primeiro plano o SOM da palavra
Quando, sobretudo e sempre, começamos a imaginar, a operar por imagens poéticas, a realizar, em companhia das palavras (não mais mandando nelas, vei fazer isso, vai fazer aquilo, sua escrava), a realizar  IMAGEM.
Pronto. Deixa assim resumido, nesses dois magnetos principais (êta eu, hein, Paulo? Um dia chego lá), embora tenha mais aspectos eróticos na palavra, a lembrarmos.

Escuta só, estou ouvindo o Suassuna, olha só esses versos (ouçam SIM o que enviei em arquivo. IMAGENS)):
E a vida se desdobrou em frente dos meus olhos… Marcada de signos e insígneas

No relógio do sol o céu ponteiro
sangra a cabra no estranho sol chumboso

No carrascal do céu azul braseiro
refulge o girassol rubro e fugoso
Como morrer na sombra do meu pouso?
Como enfrentar as flexas deste arqueiro?

Vejam como a imagem é magnética. Ela atrai a lembrança, as experiência deslembradas, as migraçoes de letras e sílabas de uma palavra a outra, as migrações de pessoas, de espaos, de tempos, imprecisos, faz fusões sonoras, montando novos sentidos incessantemente, excede a lembrança documental, a morte do pai no atestado de óbito. Não, a MuLHER, a MORTE DO PAI, alcança as conotaçoes que somente a IMAGEM poética nos permite alcançar.
Não peço que vocês façam poema-soneto, feito Suassuna (eu tive um pai sonetista parnasiano, e não fui por aí), mas peço que morem na imagem do Ariano, deitem-se lá, com a mulher e sua romã encarnada que sejam o filho di Rei. Que se liguem, fundam-se com as imagens. Deixem-se erotizar pelas escolhas de palavras essas que comparecem naintegração de lembrança e palavra nova, tudo reconciliado. Isso é o erótico, não o assunto. Percebem?
Não precisam falar de transa, o erotismo na linguagem é feito entre palavras, é a cópula delas, sim, não adianta as suas mães ficarem brabas, rsrs, nem o vosso superego desidratado e malvado, invejoso da alegria, reclamar. Da alegria de realizarmos os nossos maiores desejos não ali, no REAL da carne, mas da carne da linguagem.
Não posso fazer nada mais que isso.
Olha,
Tenho mais uma coisa a dizer:

Talvez eu deva desprender o curso, esse cursar linguagem poética e erotismo, do da oficina inicial, pois como vocês estão vendo, nas escritas posteriores à iniciação, voltamos a alguns exercícios iniciais, só que agora eu os levo a saber o que viver com a linguagem, não é somente criatividade, entendem? É um entumescimento da vida, de eros, meu deus. É sim, entusiasmo. Ufa!

É uma questão de modo de contato com as coisas, isso, as mais banais, que se multiplicam, se excedem, quando iluminadas de linguagem, de imagem (quando a mao de vocês se digna a procurar uma caneta, entendem? antes disso, da primeira letra no papel,o mundo está morto, e nenhuma diferença fazemos).

É uma questão de conhecimento, do mesmo mundo cotidiano, através do velamento da palavra poética, isto é, um mundo onde o leitor mora conosco nas entrelinhas, sob os véus da simultaneidade, da fusão de tempos e espaços antes separados. Erotizamo-nos e o leitor idem, erotiza-se, reconcilia-se com seus desejos que não serão jamais alcançados no corpo. Não gostaram? Acham que seu casamento, seu namoro alcança o erótico? Pode ser, mas tem de ser poeta mais poeta, senão, dançou. rsrs Dançou não, fica no que todos sabem. Que diferença, gente? Tem? Me conta!
Perceberam o que nos atrai à escrita>? Que não é propriamente a redação, mas a experiência do novo, do deslumbre, da vertigem?
O terreno do erotismo não pode ser geográfico por isso, nem morar num corpo,
Ele é o sempre novo, é o entrar sabe lá onde, de maravilhas. Imagem.Vertigem. Tá?

Então é isso, vamos continuar na exploração da imagem
Embora o Fábio, o Filipe e o André, a Deise, devam entrar na crônica agorinha, com o Tema Meu Primeiro Quarto, todos vamos abraçados à imagem, está bem?

Hmmmmm… Mas aí é que está:
Eu não acredito que se possa escrever de maneira nova, de maneira sua, sem passar pela experiência da imagem.
Não acredito.
É essa experiência que vai lhes garantir a expressão seja na tese, no artigo de jornal, do bloguem, do tuiter, no bannerdo seu curso, enfim, é a imagem que os fará serem ao mesmo tempo que universais, extremamente singulares. )Depois a gente fala da IMAGEM como paradoxo, e do erotismo como fenômeno da ordem do paradoxo).
Isso, esta é a única possibilidade de fazer-se a diferença. A diferença de ser si mesmo, na linguagem, o bem com que o divino nos brindou. Não os seus carros, nem seus melhores edifícios.

O edifício da palavra, que cada um nós arquiteta, engenhosamente, ainda que sem muito planejamento, é o que sobra para as outras gerações ((Só no erotismo, a nossa morte não é fim. Veja o Suassuna, escute novamente, depois me diz se estou brincando)).
Os outros, os edifícios de tijolo, ah, eles são muito duros, que mau gosto de herança, hein? (Exceto as edificações de Gaudi, e os Jardins Supensos da Babilônia, rsrs.)

Bom fim de domingo
Regina
8533156028

Ah, prefiro fazer outro egroups, esta semana resolvo.
Até lá, é esta a lista do grupo atual, guardem, salvem, por favor.
Alguns textos que eu tenho na máquina e que vejo que pode lhes fazer falta, estou enviando direto a cada um.
Agora, sem a presença, eunão tenho como reunir seus textos na mesa. Então cada um salve o que de fato valoriza.
Eu acho que tem de guardar todos.
Bj
Venham para a aula lidos e escutados.

 

MANIFESTO DO SURREALISMO
(André Breton – 1924)
Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem
entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador
definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos
de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por
seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar
sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão:
sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua
riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recémnascido,
e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é
indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua
infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha
sido com o desvelo dos ensinantes.
Aí, a ausência de qualquer rigorismo
conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se
agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de
todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está
tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros
ou escuros, nunca se vai dormir.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de
distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte
da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe
permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir
por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em
geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.
Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a
pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação
excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele
doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que
não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a
suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que
for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não
toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um
desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele
não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.
Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.
Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero
apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem
dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós
herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida.
Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão,
fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é
rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá
contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição
terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me
enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ).

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