Chalé da escritora Thereza Gomes

15 de setembro de 2010 § 1 comentário

GÊMEAS

Pular na cama em dia de chuva, no

exercício que o pequeno corpo pedia

fazia-se acompanhar das gargalhadas de cada uma de nós.

A cama com estrado de molas

nos arremessava para cima

e na volta

fazíamos a estátua momentânea:

o jeito que nossos corpos caiam.

Thereza Gomes

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O CÉU POR TESTEMUNHA

Era apenas uma frase de efeito: “A forma determina o conteúdo”, mas fiquei pensando na minha forma e se meus pensamentos imperfeitos, as vastas emoções que me estremecem e tudo o mais que vai dentro já está tão alterado como minha forma externa.

O abraço de meu marido já denunciara a ausência de carnes e o excesso de ossos. Assim, sem que nada de mais tenha acontecido eu começo a diminuir.

Não houve uma poção, nem nada drástico, como no caso da Alice, foi apenas o passar do tempo, esse acontecimento contínuo e rotineiro, marcando os rostos, os corpos, a superfície do mundo.

E se eu disser que chega? Se quiser reclamar meu direito de interromper essa sucessão de amanheceres e anoiteceres que assisto da minha varanda? Haverá alguém ou algo que possa providenciar isso que reivindico?

Na varanda a rede balança sozinha, tocada pela brisa da tarde que sopra as velas dos pescadores voltando da lida diária. Os galhos da grande mangueira do jardim também são chacoalhados e a folhas mais velhas não conseguem ficar agarradas, seus pedúnculos já amarelados as soltam e elas vêm aterrissar a meus pés, junto à cadeira de balanço em que me sento nesses fins de tarde.

É a minha hora de reflexão. Perco meu tempo vendo as fotos de meus filhos bebês e acompanho a seqüência de imagens até vê-los crescidos, pais de seus bebês, netos agora já são moços, de quem eu não tenho mais fotos, estão todas no computador em programas que desconheço.

Desço da varanda e caminho pelo jardim; cumprimento as roseiras pela beleza que produzem nas rosas em que o esmero nas cores imagino que é feito para me agradar, há alpineas e helicôneas em mesuras simpáticas quando me aproximo. Um jasmim resolveu enfeitar a goiabeira, subiu por seus galhos e de lá derrama seu perfume adocicado sobre a minha cabeça.

Vou até o portão e perscruto a rua. Só ouço ronco de motores e pneus triscando o asfalto. Motoristas que correm contra o tempo, aproveitando que não há mais obstáculos que os impeçam. Apesar disso afino os ouvidos para alguma voz humana, algum grito de criança que ainda possa cruzar os ares. Volto decepcionada, não há mais gente caminhando  nessa rua, muito menos crianças brincando de queimada, não há mais o que ver do meu portão.

A brisa arrefece e eu posso deitar na rede. Aqui estou e meu corpo começa a esfriar, minha alma já o despreza e deseja partir para outras aventuras, para outros corpos talvez, ou para simplesmente pairar no azul intenso, espiando de cima o corpo envelhecido que ela, bem mais jovem, não quer mais.

Thereza Gomes, 2010

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cesta de flores

cesta de flores

A DELICADEZA

O menino gostava de pensar. Tinha dez anos e fazia cálculos incríveis, suas contas de cabeça eram sempre certas, escrevia e falava bem. Mas os pais, médicos, não tinham tempo, mal prestavam atenção quando ele procurava exibir seus conhecimentos, já os avós lhe  eram devotados inteiramente, prontos para aplaudi-lo, servi-lo, faziam tudo que cabe na definição de avós corujas.

Nas longas férias do verão novaiorquino os pais nem o viam, ele viajava com os avós para lugares  distantes como o Hawai, o Caribe e até a América do Sul já tinham visitado.

A companhia jovem e animada do menino contagiava o casal e era um prazer  realizar as vontades de um neto tão esperto. Ele apreciava tudo o que via, memorizava as histórias que ouvia dos avós, dos guias, e do que lia de antemão quando a viagem era programada.

Para as longas viagens de carro o avô programava jogos, resolução de charadas, brincadeiras de adivinhação, pequenas atividades intelectuais que o distraiam fazendo o tempo parecer mais curto.

Era o começo da primavera e havia o “spring break”, dez dias de férias em que eles resolveram fazer a longa viagem para o oeste, para o parque de Yosemite, na California. Iriam de carro porque o garoto demonstrara muito interesse em conhecer o meio oeste que ele aprendera ser o “celeiro do país”.

Algo que complicava a viagem era o fato da avó fumar freqüentemente no carro, isto contrariava os ensinamentos dos pais sobre a preservação da saúde. Longos discursos sobre educação social e saúde era o que mais ouvia deles, denotando que a preocupação exclusiva com o filho era a boa alimentação, a boa saúde e a boa escola, monólogos que o menino ouvia e registrava.

Durante um trecho da viagem ouviam o rádio e apareceu um comentarista de saúde, informando que as novas descobertas sobre os efeitos do tabagismo no organismo registraram que a cada baforada a vida do fumante era diminuída em dois segundos.

O garoto começou imediatamente a contabilizar as baforadas da avó, quantos segundos ela levava para consumir um cigarro, quantos segundos por dia, quantos segundos por mês e quantos por ano; descontava o tempo de sono dela, etc. Ficou muito quieto fazendo seus cálculos e finalmente chegou a um resultado comunicando a avó que ela teria nove anos a menos de vida porque fumava.

Ele esperava ser cumprimentado pelos avós pelo raciocínio rápido, pela esperteza de chegar a um resultado sem usar uma calculadora. Mas ao invés disso a avó começou a chorar.

O avô dirigiu para o acostamento, parou, abriu a porta e pediu que ele descesse para conversarem frente a frente.  “Você ainda é pequeno, mas espero que ao crescer aprenda aquilo que o tornará um ser humano e não uma calculadora, que é mais fácil ser esperto do que ser gentil. A esperteza você pode receber como um presente da sua constituição genética, mas a característica de ser amável e ter consideração com o próximo você terá que conquistar”. Ou, no idioma deles: “It is easier to be clever than to be kind”.

Thereza Gomes, 2010

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Tereza, aqui arrisco a leitura crítica que você me solicitou

Os dois textos são contos, claro. Segundo o Mário de Andrade, é conto o que o autor assim chama.

Porém, no primeiro o narrador se coloca mais na posição de cronista, esse que é personagem da ação do conto, que reflete sobre o dia a dia, que faz uma alteração na visão do leitor, ao comentar uma realidade próxima.

Muito bem conduzida, bem tratada, o vocabulário delicado e simples, sem empolações nem viravoltas de linguagem para compensar o que dizer. Tem o que dizer, vai e diz. Literário? Claro: linguagem , brevidade, ficionalização suficiente para o leitor acreditar que o narrador é o autor, etc;

O segundo, maravilha, é conto, mais que crônnica. É um episódio da vida diária sim, mas é a contação em terceira pessoa que dá o tom de “Sabe, leitor, eu fiquei sabendo que um garoto… E para que contamos assim? Para sermos universais, para aquele conteúdo perdurar e ser contado a outro. É um caso.

O primeiro, é mais uma experiência de leitura que nos altera, que nos muda pela capacidade reflexiva sem nenhuma teoria, brilhante por isso mesmo.

O segundo, sem teorizar coisa nenhuma, também, deixa-nos guardar o fato e querer contar para o vizinho, que vai contar ao vizinho… Entretanto, leva jeito de crônica, veja os aspectos da linguagem que marcam  um narrador interessado na reflexão crítica do seu leitor.

Ambos bastante competentes, os narradores, a linguagem, o modo de tratamento dos personagens. No A Delicadeza, ainda,  é curioso ver como o narrador não se detém na avó mais do que o personagem menino exige, para dimensionar-se novamente, através do avô, esse menino em mudança

.

Muito bom.

Bj

Regina

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§ Uma Resposta para Chalé da escritora Thereza Gomes

  • uxa disse:

    Thereza, não sei dizer nada disso que a Regina disse, mas concordo com ela. O que eu quero dizer é que ambos me tocaram. Profundamente. O estilo é fluente e eu caminhei junto com vc pelo jardim e desfrutei deste neto. Eu que nem tinha tempo de parar aqui no micro no momento estou aqui até agora pra dizer que boa, que boa mesmo foi essa experiencia que tive nessa manhã ao te ler. um beijo, thereza, um beijo. uxa

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