Hino a Pã

2 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

(de Mestre Therion *)


    Vibra do cio subtil da luz,
    Meu homem e afã
    Vem turbulento da noite a flux
    De Pã! Iô Pã!
    Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
    Vem da Sicília e da Arcádia vem!
    Vem como Baco, com fauno e fera
    E ninfa e sátiro à tua beira,
    Num asno lácteo, do mar sem fim,
    A mim, a mim!
    Vem com Apolo, nupcial na brisa
    (Pegureira e pitonisa),
    Vem com Artêmis, leve e estranha,
    E a coxa branca, Deus lindo, banha
    Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
    Manhã malhada da àmbrea fonte!
    Mergulha o roxo da prece ardente
    No ádito rubro, no laço quente,
    A alma que aterra em olhos de azul
    O ver errar teu capricho exul
    No bosque enredo, nos nás que espalma
    A árvore viva que é espírito e alma
    E corpo e mente – do mar sem fim
    (Iô Pã! Iô Pã!),
    Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
    Meu homem e afã!
    Vem com trombeta estridente e fina
    Pela colina!
    Vem com tambor a rufar à beira
    Da primavera!
    Com frautas e avenas vem sem conto!
    Não estou eu pronto?
    Eu, que espero e me estorço e luto
    Com ar sem ramos onde não nutro
    Meu corpo, lasso do abraço em vão,
    Áspide aguda, forte leão –
    Vem, está fazia
    Minha carne, fria
    Do cio sozinho da demonia.
    À espada corta o que ata e dói,
    Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
    Dá-me o sinal do Olho Aberto,
    E da coxa áspera o toque erecto,
    Ó Pã! Iô Pã!
    Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
    Sou homem e afã:
    Faze o teu querer sem vontade vã,
    Deus grande! Meu Pã!
    Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
    Do aperto da cobra.
    A águia rasga com garra e fauce;
    Os deuses vão-se;
    As feras vêm. Iô Pã! A matado,
    Vou no corno levado
    Do Unicornado.
    Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
    Sou teu, teu homem e teu afã,
    Cabra das tuas, ouro, deus, clara
    Carne em teu osso, flor na tua vara.
    Com patas de aço os rochedos roço
    De solstício severo a equinócio.
    E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
    Sempiterno, mundo sem termo,
    Homem, homúnculo, ménade, afã,
    Na força de Pã.
    Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

    Fernando Pessoa

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